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sexta-feira, 2 de março de 2012

balada dos peixes e dos homens

O mar! O grande mar! O mar amigo e bom!
quando nasci já eras imenso e teu poder se estendia cais adentro
no azul infinito
mas sinto que cresceste comigo
dentro de ti de calças brancas mergulhei
deixei a saia amarela rodada de minha mãe
e corajudo te encarei
ainda menino com gambitos fininhos o teu embalo desfrutei
com os dedos enterrados na praia me deixaste
mas desde então me acompanhaste
e quando o velho Chico voltou aquela tarde
fedendo a cachaça, choro e morte:
- o mar levou teu irmão -
ainda assim nos amparaste
culpei o barco que virou
tormenta de vento e trovoada
barrigas vazias sobre a mesa
que escolha tinham meu pai e meu irmão?
é uma troca justa
vivemos da asfixia dos peixes
que são os filhinhos do mar
o mar vive do afogamento dos filhos dos homens
os pescadores
mas todos os dias
pela ganância dos velhos coronéis
o mar é mutilado
e mesmo não achando correto
muitas vezes famintos
oferecemos nossos braços pra remar os grandes barcos:
- braços e fomes não faltam na praia -
pelo menos dona Dalva quem levou foi a sezão
mas seu Francisco o mar levou pouco mais tarde
foram sempre muitos filhos e pouca comida
por todos meus irmãos que morreram no mar
e pelas irmãzinhas que tive que deixar
na casa de dona Valéria pra virar mulher da vida
choro um pouquinho toda tarde
e peço ao mar pra ser bonzinho 
e me levar também


*Texto escrito com todo carinho para minha amiga Letícia Ramos interpretar e apresentar no Museu do Mar.
** Inspirado no livro Homens e Algas de Othon D'Eça

domingo, 22 de janeiro de 2012

natureza

Gosto, que me sintam todas as partes
com as mãos
antes de me encostar a língua
em todos os lugares que não são a boca
Na boca
eu quero sentir todo o gosto
da pele, do lábio e do corpo
daquele que tiver o cheiro certo
Correto
é amar e amar feito louca
sem querer, sem pensar, sem poder
Desistir
do que foi e será sempre certo
Amor
na verdade não tem nada a ver
é só palavra de sentido incerto
incorretamente atribuído
ao impulso que nos trás a vida
e faz
morrer
porque antes dele não havia morte
Eramos
e eramos todos unidade
nos dividíamos e continuávamos sendo unidade
do que agora é apenas metade
de um todo com todas as partes
que faz viver 
depois morrer